Domingo, Novembro 8

Dengue, pecados cívicos e a mão amputada das autoridades.

Os ossos dos dedos esguios da morte tocam-nos nos ombros. O povo assusta e grita de desespero! A morte vem com a sua gadanha ameaçando o sossego dos ilhéus, principalmente a paz de espírito dos praienses, que ao longo da vida pouco ou nada se preocuparam com o lixo e a sujidade da cidade. Hoje é dia de procissão, a população junta-se no saneamento urbano – tolerância de ponto para limpeza de toda a cidade da Praia. Triste, é que se não teve chegado a morte nunca tal acontecia. Roga pela piedade divina quem é crente, e pela misericórdia do Aedes Aegypti quem tem mais fé no animismo do pavor do cidadão.

Na cidade da Praia as pessoas convivem facilmente com a porcaria. Os excrementos caem-nos da mão com a mesma facilidade com que a poeira dos lixos nos entra pelos olhos; as pessoas adoecem [só que não era aos milhares e ninguém morria, pelos menos que déssemos conta ou que viesse na sua declaração de óbito − a causa da morte é o lixo] e morrem por causa da dengue. Até hoje, nenhumas das autoridades se ofenderam com o amontoar dos lixos nas bermas das estradas, nos arredores das casas, nos leitos das ribeiras e deu-se a catástrofe: com o lixo e a água estagnada o mosquito Aedes Aegypti cresceu e multiplicou, dominando toda a área quadrada da cidade, infectando as pessoas deixando-as enfermas e cheiro de morte no único sentido que é o trânsito da vida.

Estamos todos sintonizados com a gente das ilhas, as preocupações são sentidas aqui, léguas do horizonte Cabo Verde. Todo o rosário é pouco [na angústia e de cruz não faltam nem contas e nem dedos para o oficio da oração]! As explicações médicas são insuficientes para acalmar a angústia e a aflição da população. Demo-nos por nós unidos na desgraça, não se via os praienses neste frenesim e azáfama desde os tempos da fome sazonais. Só que fome existe pela culpa da natureza [se não chover, não há pasto e pouco podemos fazer], mas neste caso, o da dengue, a responsabilidade é dos praienses. Excluindo César Schofield, que publicamente confessou no blogue Bianda, o seu delito [faltando ainda, cento e dezanove mil, novecentos e noventa e nove indivíduos; tendo em estimativa que a população da cidade da Praia ronda os 120 mil] os outros não se redimiram dos seus pecados cívicos.

Se sentir sintomas da Dengue, ligue para este número!

Quinta-feira, Novembro 5

DENGUE.

DENGUE, DENGUE! A temperatura do corpo e do país tem estado elevado desde que a dengue tomou proporção de pandemia de dimensão arquipelágica. As autoridades hospitalares andam aturdidas com tanto vaivém de pacientes, ruptura de stock dos medicamentos e falecimentos de enfermos. O Hospital Agostinho Neto, na capital do país arrebenta pela costura, e foram necessárias tomadas de medida excepcionais [acomodamento de doente na sala de espera]. Pelos menos, o socorro hospitalar tem sido satisfatório, tendo em conta que o pior vem sempre com o anuncio da morte dos enfermos [até agora já foram quatros, e espero que fique por aqui]. Podemos afirmar que ao nível de atendimento clínico, os hospitais têm sido satisfatórios. O mesmo não poderei dizer das administrações políticas. O problema não está no atendimento e nem na disponibilidade. A embrulhada fatídica que tem entulhado o Governo e a Câmara Municipal da Praia está mais na falta de tomada de posições sobre matérias como sanidade pública de que outra coisa mais. É incompreensível que se permita a morte devido a estas doenças em Cabo Verde, porque ainda temos carência de políticos que tomem AQUELA DECISÃO. A DENGUE é uma doença de sujidade e imundície. Mas quando a epidemia de dengue passar, será que para o ano teremos mais (?). Se não houver coragem para se impor certas regras de higiene urbana, teremos mais do mesmo para o ano. Coitado do Povo!

Quarta-feira, Novembro 4

Coisas apetitosas, sem falar dos doces: A Prudência da Sabedoria Democrática I.

[1] Democracia. A democracia é uma palavra barata em Cabo Verde. A palavra quando é vociferada em qualquer círculo de protesto ou lírico é sempre para reclamar o DIREITO incondicional de ter Direito. E todos nós temos a mínima noção dos nossos direitos, mesmo sem perceber o significado conjugal que lhe vem associado: o DEVER. Todos nós gritamos por uma cidade limpa, mas não damos ao trabalho de limpar a cidade; berramos todos pelo direito a electricidade, mas a maioria se puder, rouba a electricidade da ELECTRA, porque a minoria o faz; todos desejamos menos violência nas ruas, mas insistimos em transmitir a ideia que vale tudo para estar feliz e que as coisas apetecíveis devem ser conseguidas sem o mínimo respeito pelo colectivo. É por isso, que se diz que “os políticos são reflexos da sua sociedade”, ou seja temos os políticos que merecemos. E assim sendo, confunde-se promiscuidade com liberdades individuais.

Em Cabo Verde ninguém quer saber! A justiça pouco ou nada se interessa em justificar [ou obrigar os indivíduos à justificar] a lúcida riqueza da corrupção. A democracia não é bloco maciço, é um murro e se a base não for firme caí sobre o próprio peso. Não estou a vaticinar um mau presságio por uma democracia que acaba de nascer, mas que já tem idade suficiente para passar para a face de puberdade. Na puberdade experimentamos coisas apetitosas na busca do conhecimento do nosso corpo, fazemo-lo normalmente sozinhos por nossa conta e risco, porque assim é a evolução individual. Na analogia, a democracia cabo-verdiana precisa experimentar outras coisas que lhe estimulem o crescimento no que diz respeito à moral e à ética. Só que todo este empenho só é possível se houver sabedoria [que tem mais a ver com o saber conduzir as nossas acções e virtude de que a pura inteligência da sobrevivência].

Coisas apetitosas, sem falar dos doces: A Prudência da Sabedoria Democrática II.

[2] A Prudência da sabedoria democrática [a virtude que nos faz conseguir o que desejamos, evitando todos os perigos] obriga a um apurar da sabedoria, tino e instrução porque, ao que parece, a sociedade vai se perdendo em bestialidades e futilidades descartáveis. Coisas que nos são momentâneas, supérfluas e cuja qualidade não serve de alicerce para a nossa sociedade humana, porque certas normas e regras perduram quase uma eternidade. Normas como: a Família; Género; Reprodução; Morte; Organizações Politicas; Sagrado e Profano, etc., representam o suporte das sociedades humanas; e enquanto não forem mudadas por outras, o desalinhamento pode levar ao caos e à desgraça. E tem sido sempre assim! As sociedades se reconstruem perante o descalabro e revoluções, mas as mais sábias e prudentes conseguem mudar sem que seja preciso um desastre ou uma ruptura tectónica. As sociedades escandinavas conseguiram um bem-estar colectivo e socialista sem que houvesse uma revolução radical dos tecidos sociais. Por isso, o que cabe a nós fazer para que as alterações não nos levem à derrocada (?) – Sabedoria democrática. Embora não seja o único sentido para se chegar à felicidade colectiva, a sabedoria democrática prima pela aritmética da maioria e da boa governação.

A governação da maioria e uma boa governação deve ser um acordo táctico entre todos os envolvidos, em que cada um cumprirá o seu papel na concretização do trabalho. O Parlamento discute a Revisão da Constituição, mas falta prudência na sabedoria democrática e menos jogo partidário. Falta centralizar o debate no país em geral e não nas bitolas dos partidos. O defeito democrático não é exclusividade da responsabilidade político-partidária. Esta responsabilidade é co-partilhada com a Sociedade Civil e com o indivíduo [que é o lado oposto do Estado enquanto sistema e regime político]. O bom funcionamento da Sociedade e o seu sucesso depende da sabedoria colectiva e do grau de consciência dos seus três vértices: o Estado [sistema e regime político], a Sociedade Civil [Instituições e Organizações Civis] e o Indivíduo.

Terça-feira, Novembro 3

Blogjoint: O país precisa de mais Doutores e Curandeiros.


Da matemática e dos ramos [alguns até escorregadios e altos de trepar], a única com que me sinto à-vontade é a Aritmética. Pois as quatros operações: adição, subtracção, divisão e multiplicação são de fácil entendimento e resolução. Por isso, feitas as contas [estatísticas, percentagens e necessidade real] poderia dizer sem pestanejar que o país tem doutores [com D grande ou d pequeno] a menos. Agora o que devia haver mais são doutores racionais, autónomos e produtivos. O imbróglio deste debate vem colado na afirmação de David H. Almada, sobre a carência de cursos profissionalizantes em subtracção com os cursos superiores [outra vez mais aritmética dos números simples]. Há quem queira tirar um aproveitamento político por causa desta afirmação desligando-a do contexto e do propósito, porque de certeza em muitos das nossas discussões de Cafés, já por várias vezes e circunstâncias, este tema foi dissecado e as nossas posições dependentes das observações e deduções podendo ser acertadas ou não. Arranjados os números e emendadas certas ideias feitas, o país necessita de mais doutores e para não ser tão alarmista, precisamos urgentemente de doutores com os dois nas áreas tecnológicas de informática, agronomia, no campo dos oceanos, de investigadores e pesquisadores. Do mesmo modo que o país precisa de doutores académicos, necessita dos seus feiticeiros doutores — aqueles dotados de sabedoria popular. Homens com uma capacidade de interpretar as nuvens e a alma das pessoas; que saibam guiar os mais novos endireitando os ramos tortos da vida. Na verdade, o país carece de doutores e curandeiros.

Outras abordagens sobre o tema nos outros blogs: Bianda, Blog di Nhu Naxu, Café Margoso, Emílio Rodrigues, Geração 20 J. 73, Ku Frontalidade, Nos Blogue, O Jornal da Hiena, Passageiro em Trânsito, Pedra Bika, Teatrakacia, Tempo de Lobos e Amilcartavares.

Segunda-feira, Novembro 2

Umbigos e ambiguidades I

Da Sermão de Carlos Veiga no enceramento da Convenção do MpD. Ouvido a sabática oratória [que mais parece um grito de Ipiranga para o consume interno: …pela felicidade geral da nação, eu fico!], deves ter tido algum tipo de dor reumatismal nos músculos do pescoço − conhecido por torcicolo, ao dar tantas voltas para ver se conseguia reconhecer este Carlos Veiga algures no passado. Quando o próprio não respeitava a autoridade episcopal da Constituição e nem da figura suprema do Presidente da República. Existe uma clara diferença entre este Carlos Veiga que assedia o poder e o Carlos Veiga no trono da segunda re(s)pública – aquele primeiro-ministro que outrora fez de tudo para implementar uma dinastia dos Bourbon na Ilhas de Cabo Verde.

[Um a parte para entrosamento histórico: a dinastia dos Bourbon é o período do absolutismo em França, tendo o seu ápice no reinado de Luís XIV, o Rei Sol. O senhor do discurso L'État c'est moi – o Estado, sou eu.].

Continuando a nossa rapsódia: foi sem ambiguidade que Carlos Veiga se quis fazer Rei dos Pescadores, na terra onde as mitologias marinhas não são postas em causa, acreditando-se no Monstro das águas salgadas e ponto final. Carlos Veiga fala de lobo vestido de cordeiro. Fico a pensar, mas não era este Lobo que nos quis mastigar em pleno regime democrático num processo de nomeação de Reis e de nobreza (?) e que enquanto primeiro-ministro nos roeu as unhas num método de privatização: vendo, vendo, e vou distribuindo as hóstias entre pares. E hoje estão todos ricos, e sem que houvesse multiplicação de pão e de peixe. E fica a dúvida, como é possível a multiplicação dos cifrões sem que haja chuva de metal cunhada sobre as nossas cabeças. Quando Carlos Veiga fala de cordeiro, eu que sou cordeiro de verdade e que já foi mordido umas vezes, fico a pensar onde é que lobo se esconde.

Domingo, Novembro 1

RECEITA DE REPELENTE CASEIRO - CONTRA A DENGUE


Paludismo e outros...

·(Em tempos de DENGUE, divulguem esta receita!)

Esta receita foi passada por pessoas de uma colónia de pescadores (Brasil).
O excelente é que não intoxica; pode ser usado à vontade.
- 1 Garrafa de álcool etílico ou mesmo canforado
- meio vidrinho de óleo para bebe para não desidratar a pele (o óleo é opcional);
- 1 pacote de cravinho (mais ou menos 30 cravos), e deixe ficar em infusão por uma noite.
(Dizem que) Torna-se um excelente repelente caseiro! E o cheiro até é agradável!

[recebido via email]

Sábado, Outubro 31

A chuva. A ambiguidade dum Ser aquoso na raiz e desidratado na pele. Nós Hesperitanos II

Toda moeda tem a sua cara e a sua coroa. A chuva deste ano não podia ser só madrasta, tinha que ser mãe nem que fosse na coroa. Se o ano agrícola for bom como se espera e se assim fosse sempre o Chiquinho de Baltazar Lopes nunca teria necessidade de emigrar. Nem mesmo os outros tantos milhares de pedras cabo-verdianas que tiveram de afastar-se um pouco do nosso chão seco.

A poeira solta dos dias em que a estiagem é uma gravidez ininterrupta, estão consistentes na nossa pele, e o solo germina a primitiva erva embrionária nas primeiras pancadas de chuva na terra, o verde volta a ser interminável nas ilhas dos hesperitanos – nós! Este Verde [que sinto a necessidade de escrever com maiúsculo] interpreta a alma cabo-verdiana na sua melancolia e no seu desafogo. É daqueles verdes que afundam as desgraças dos homens para a fundura do ânus de Judas.

Desaguou em cachoeira líquida e as nuvens galgaram a garganta da barragem de Poilão; os camponeses nestas horas andam a sugar o néctar da esperança até o tutano das frutas, converteram-se em peixes de água doce no lago artificial da Ribeira Seca de Santa Cruz. Ainda bem que assim foi! Não se saberá se assim tornará a ser nos próximos anos, porque nascemos num lugar onde a chuva tem as suas manias.

Sexta-feira, Outubro 30

Imagens da Ilha de Santiago – Cabo Verde


[Imagens extraída da asemana.publ.cv]