Terça-feira, Novembro 24

Umbigos e ambiguidade V

Ainda no deslaço da entrevista [mastigando uma pastilha já com pouco sabor a tutti fruti], ainda que o entrevistado se mantenha calçado e numa desatenção na condução da entrevista, Carlos Veiga esquivando a esta pergunta: “Mas Cabo Verde foi o único país do mundo que deixou de ser considerado menos avançado para passar a rendimento médio?” Teve esta extraordinária resposta: Mas isso é normal, Cabo Verde tem crescido sempre, mas tem de crescer mais. O desemprego é a mãe de um conjunto de problemas sociais graves, a pobreza, a delinquência juvenil. Falhámos no sector da energia, produção e distribuição, estamos a falhar na Justiça, no sistema de transporte inter-ilhas, segurança.” Só que a questão de crescimento não é da Ordem da Naturalidade, o crescimento dum país não é algo de natureza espontânea e de ingenuidade; o crescimento realiza-se pelo seu projecto, empenho e trabalho. E reconhecendo que o país vem crescendo [e agora somamos nós outros condicionantes externos que determinam também o crescimento, como por exemplo a Crise Económica] o regresso de Carlos Veiga tem pouco a ver com o mau estado social e económica do país [adjectivo diminutivo], que chegou a ser pronunciado pelo MpD, e como não teve ressonância desejada, esta postura discursiva foi abandonada por uma mais subtil que tem a ver com a perda de oportunidades. Afinal não é pelo país estar mal que Carlos Veiga regressou, foi pelo país ter crescido sempre e por ter perdido oportunidades. E neste ápice alimentam-se outras dúvidas, estes chances dispersadas foram perdidas pelo país ou por um grupo de empresários ávidos pela abertura de novas e maiores oportunidades providos com a infra-estruturação (?), deixando cair nesta balança dúbia o facto de que uma boa parte do tecido empresarial do país surgiu logo depois de o MpD ter-se tornado oposição.

Segunda-feira, Novembro 23

Umbigos e ambiguidade IV

Dr. Carlos Veiga que todos reconhecemos inteligência e perspicácia, na última entrevista online exposta na vitrina do Expresso das Ilhas deixou cair estas farpas de penitência, afirmando que “…há uma desconfiança séria sobre os seus órgãos de cúpula (referindo-se a Justiça) porque são constituídos na base de escolhas políticas…; lido isto, caiu-me o credo da boca. A Constituição da República, a nossa carta Magma é toda ela feita, caligrafada e ditada em voz alta pelo Dr. Carlos Veiga. Se o mesmo se glorifica de que a Constituição Democrática é o seu melhor contributo qualitativo para a democracia cabo-verdiana, porque é que só hoje e não foi assim tanto tempo [se nos lembrarmos que existem Constituições seculares, provadas em circunstancias de pura revolução e distintas realidades, mas ainda actuais], tendo em consideração que todos os intervenientes estão ainda activos na vida política. Então quais as razões por que vem agora Carlos Veiga penitenciar um grave erro da teia democrática.

Teias porque, a democracia tem as suas teias antidemocráticas e muitas vezes estas teias [ou armadilhas] são artimanhas elaboradas para a imposição de vontades alheias à democracia propriamente ideológica. Digo ideológica para diferenciar com a democracia discursiva, sendo que a primeira tem por base doutrinas, princípios e valores; e o segundo mais palavra do que a concretização da razão democrática, é como dizer que a democracia discursiva fundamenta mais no discurso, do que precisamente nas matrizes e verificação de factos históricos subjacentes à democracia.

É nesta conjugação de factores como: a inteligência de Dr. Carlos Veiga, o seu profundo conhecimento do que são as doutrinas democráticas, a sua vocação democrática, a sua visão do futuro e a sua perspicácia, que nos vemos obrigados a reflectir a forma como está montada esta peça chave da democracia cabo-verdiana – a Constituição, e as oportunidades desperdiçadas nas revisões feitas ainda na época do governo de Carlos Veiga (?), onde ainda então era o líder do partido que sustentava a República. Continuando no mesmo teor, sobre a questão da origem da Constituição e este pecado, na entrevista a pergunta de réplica: E porque não colocou um outro modelo quando fez a revisão da Constituição (1999)?”, o Dr. Carlos Veiga responde: “Foi a prática que nos mostrou ao longo destes 10 anos que o modelo não está a responder. Faliu, caducou.” Deixando transparecer que erro não está no MpD que teve o esforço de armadilhar a Justiça quando fez a Constituição e a sua revisão, mas no PAICV que executa esta regra instituída.

Menina Mulher 13: Diana Chaves


Nome: Diana Chaves

…e Deus desejou a mulher!

Sexta-feira, Novembro 20

PEQUENÍSSIMAS ESTÓRIAS DE AMOR IMAGINÁVEIS.

Uma bicicleta largada na soleira de uma casa antiquíssima, em que as paredes conservam um aspecto sumptuoso de um passado majestoso. Dois amantes aos saltos no meio do jardim, tentam apanhar com as mãos frias a borboleta que se lhes esquivava da mira. O dia é de primavera, a alegria contagiante toma conta do amor e das rédeas das duas criaturas sorridentes, principalmente a menina de vestido vermelho que esvoaçava um lenço branco que lhe enlaçava o pescoço sem nunca deixar de abraçar o namorado. Acontece várias vezes, esta felicidade fervente e arrebatadora dos sentidos, que deixa os apaixonados flutuarem preguiçosamente na transpiração ofegante dos amantes. Procuram no outro a sombra aquecida das sensações carnais, e puxam devagarosamente os olhares para o desejo dos sonhos respirados. Apertam-se tanto que o ruído dos corpos é perscrutado pela árvore que lhes abrigava e escondia os desejos espontâneos. Docilmente puxam da palavra, querendo atrasar o tempo e beijam-se intensamente, como se tivessem aberto uma torneira, e deglutam todos os gostos do açúcar e do oiro das frutas purpúreas, tal era o jeito de como que trocavam as carícias e sabores.

Solitária, a árvore recebe o amor inigualável duma mulher. Distante a mulher parecia-nos muito mais velha, ao aproximarmo-nos à luz do candeeiro, sentimos que os dois [a árvore e a mulher] respiravam ofegantemente; surpreendemo-nos com a aparência vigorosa tanto da árvore como da menina, duas feições serenas e adoçadas. No crepúsculo dificilmente saberíamos distinguir a menina da árvore, no jeito como trocavam as carícias e se ficássemos pelos pormenores descreveríamos talvez, a maior cena de amor alguma vez observado num retrato ou num quadro de pintura impressionista. O movimento tranquilo e coreográfico da árvore, como a querer bater asas, de querer deixar-se ser engolida, só não sobreponha o desejo na menina, porque no fundo do coração da garota suspirava um ardor fantasia carnal de querer suspender a árvore pelos ramos, como quem queria agarra-la pelo cabelo. A ternura idílica da árvore, os toques de dedos da miúda e a efusão relampejante que saltava dos corpos incendiava os telespectadores que assistiam a doçura da paixão.

Deslumbrante o jogo de palavra e da carícia do gato para o balão de sabão. O gato aplacava violentos sopros no balão entortando os lábios, repetia-lhe ininterruptas palmadas com toda meiguice dos amantes. Repercutia no gato arrepiantes vibrações sonoras quando o balão tilintava no ar, cambaleava e enrolava a cauda enquanto o balão vagueava o ambiente pacato do quarto. O quarto invadido pela luz duma lanterna só era ocupado pelo gato nu e um balão de sabão ingénuo e conquistada pelo erotismo do felino. Noutro brevíssimo instante o gato divide o seu amor com duas folhas brancas de papel que também gracejava delírios ao gato, deixando-o de pêlos hirtos também na articulação da palavra. O gato, o balão e as folhas de papel amavam as palavras e as metamorfoses das sílabas frágeis espremidas sem magoar a fruta.

Quarta-feira, Novembro 18

Cabo-verdianidade dos homens peixes. É neste nosso mar onde bebemos o sal do Sol II.


Nós cabo-verdianos temos por mania transportar todo o nosso chão, e com as suas marcas estéreis para outras paragens. Deslocamos os vestuários, as bugigangas, as recordações e transpirações para os postos fronteiriços do mundo [tanto quando fosse possível enumera-las], pousamo-las sobre o altar dos sítios onde fixamos o domicílio e por extravagância vivemos em círculos quadrados, desenhados na justa medida para as repetições do baque titilante do átomo crioulo. Pela adivinhação das linhas das mãos – construindo objectos com a concordância das cores primárias, os nossos caminhos são um trem alinhado com as estações temporais dos lugares do Mundo, a nossa velocidade esbarra na circunferência da Terra e para que não haja dúvida, os nossos sonhos desfilam entre constelações e os astros incorrigíveis em rota de colisão com a da Ilha de Boa Vista.

No primeiro momento em que o estrangeiro decifra os pergaminhos do nosso ADN, detecta que somos os únicos a morrer assim. Não como as árvores que deixam ficar a sua carcaça nos parapeitos dos jardins a petrificar o cronoscópio gotejante da água. Mas nós morremos plagiando o bicho-da-seda, encasulados na nossa teia de sal arquipelágica, onde ainda as ilhas se fermentam na viagem do ilhéu – nós cabo-verdianos. Equilibrados entre a aridez elástica e a mastigação da rocha que nos aprofunda o pé da mesa e da refeição.

Ilhéus – gota a gota na sua folha de árvore vulcânica, viaja na sua peculiaridade de alucinação, e da constatação do plano sólido do chão que escapa-se-lhes debaixo da embarcação que se vai distanciando do arquipélago dos excrementos dos vulcões inactivos – escrevem longas cartas orientando o Norte dos ingredientes da bússola [cachupa, grogue, pano-de-terra, xérem, etc.] temperando-as com a intemporalidade dos tecidos marítimos com oxigénio fotográfico. Ressequidos na falta de chuva por estes eternos e órfãos dias de Sol no dorsal da Serra Malagueta, assim é o orgasmo das plantas aquáticas nos impressionantes e catáveis montanhas da Ilha de Santo Antão.

Um traço grosso de carvão na pupila traz-nos de volta ao porto da largada – o Porto Grande dos sentidos geométricos. No lugar da nascença, despimo-nos das tragédias húmidas e esdrúxulas da emigração, tornamos a sentir a roçar na epiderme os adjectivos cabo-verdianos [a guitarra; o ferru i gaita; a bandeira; o bindi di KusKuz] e pomos em condensação: a musica, a dança e as conversas. As três juntas formam um triângulo equilátero afeiçoado à anatomia do “Homem-Ilhéu” – o cabo-verdiano, os vértices amolgados edificam a nossa aparência de peixe polígono, afiando no palmo da mão os lugares que nos são confortáveis na África, da Europa, das Américas e da Ásia. Das avenidas de Lisboa, Paris, Boston; nas ruas de Dakar, Luanda, Rio de Janeiro e São Paulo, nos primeiros andares dos edifícios copiamos terra-a-terra a folclórica pincelada da morabeza – duas demãos de azul esverdeado sobre a ressaca da luz, porque não se pode pintar as Ilhas de São Nicolau e da Brava sem reforçar o azul.

Atravancar em flagrante delito o vaivém das ondas numa efémera pulsação para atrasar a reminiscência sísmica da viagem para Passárgada – a retrospectiva da distância, rebobina a película da primeira partida; ficamos com pepitas de céu insular a saltitar na saliva, quando a intenção imprimida era de ficar a marinar na nossa água-mãe da Ribeira Grande de Santiago. À mão! Temos à disposição a erosão corroída das orações das máquinas de escrever que se encravaram nos barcos que ocasionalmente abortam a Ilha da Brava. Sem maledicência inventamos Nova Iorque para depois troca-lo com a Cidade da Praia enrolado numa cortina, partilhando o ninho com a dança. Erupções de vozes e de gritos harmoniza-nos o sangue com as notas musicais enquanto a cidade de Mindelo é a torre de vigia das moças apetitosas na docíssima uva da Ilha do Fogo. Adormecida despedia duma brecha de madeira, com o lenço vermelho acenamos desajeitadamente o milho e a Ilha do Sal do pote.


Terça-feira, Novembro 17

Chiqueiro. Presentes. Lixos e Recomendações.

Lembram-se da cólera? Do pavor das pessoas, expressiva no arrepiar dos pêlos; da atmosfera enegrecida de ar nebuloso rente ao chão; da morte suspensa e aberta nas entreportas da Cidade da Praia, e a cidade num parafuso histérico por causa da cólera? Ainda se lembra (?), de como as pessoas passaram a desconfiar das moscas, e só não houve decreto legislativo para o extermínio dos insectos. Para tal insipiência propunha-se uma astuciosa intervenção divina. O afã daqueles dias passava pela limpeza e pelos cuidados de higiene alimentar, a obediência mantinha toda gente de vigia e a ordem subordinada era: saneamento, água e lixívia. No meu bairro a vigilância ficou tão apertada que era detectável o epicentro de qualquer flato [peido ou gases derivados]; o histerismo chegou o limite do inaceitável porque o horror da morte transporta o exagero consigo. Na altura todos reconhecíamos de longe a cara da morte e da própria ruína que é a morte trás com ela. Os cidadãos despertaram e por um brevíssimo instante deixaram de empestar a cidade, porque a morte assim como veio, assim se desapareceu e voltamos à nossa rotina de imundície e de esterqueiro. Também lembramos do frenesim nos corredores do Hospital Agostinho Neto [o cheiro à éter característico dos hospitais] e da Urgência entupida de enfermos com o medo da morte costurado na testa.

Qualquer semelhança com a situação pavorosa que vivemos por causa da dengue não será plágio, e sim pura consciência dos factos e principalmente o não cumprimento de muitas promessas feitas na altura pelos responsáveis políticos. Na eloquência e aflição municipal prometia-se resolver o problema de saneamento da Cidade da Praia. O governo comprometeu-se em ajudar executando a sua parte, e desde então [passados mais de uma década] as promessas converteram-se em dívidas políticas e públicas. Como a repetição é fidedigna na sua cópia, não podíamos ficar só pelo cenário: insectos que transmitem doença, uma cidade pavorosa e a presença da morte assombrando os passos dos cidadãos; a cópia vem com todos os seus intérpretes e actores, por isto não poderá faltar políticos a prometerem a tão propalada resolução do tratamento de lixo da Cidade da Praia. Outra vez mais, como a cópia reza pela fé de não desfraldar os mais atentos prevê que no final teremos mais do mesmo, ou seja, confirma-se o DNA das promessas não acatadas. Vistos deste ângulo pontiagudo estamos enlatados neste chiqueiro. Soluções tão fáceis de serem tomadas como vedar a Ribeira de Pensamento nos seus flancos com arame, ornamenta-lo e transforma-lo num espaço verde e lúdico; e porque não uma co-incineradora com uma capacidade para tratar do nosso lixo.

Segunda-feira, Novembro 16

PTS ressuscita antes do terceiro dia na antecâmara das eleições. Ainda Fénix!

O semanário A Semana destaca o renascimento do Partido Trabalho e Solidariedade, liderado por Onésimo Silveira, conjecturando a realização do congresso para 2010. O título jornalístico é elucidativo e designativo: “PTS ressurge das cinzas”. E numa combinação das palavras: ressurreição e cinzas; o pensamento é tão traiçoeiro e às vezes funciona que nem Google, é um motor de busca extraordinário, li: ressurge e cinzase esta combinação na primeira amostra da minha memória relembro-me da Fénix mitológica. A Fénix egípcia [muito antes de ser grega] ressuscita sempre das suas cinzas, depois da auto-combustão, esta essência da imortalidade é extremamente calculista. A Fénix [pássaro] pressentindo a morte construía uma fogueira e queimava-se, das cinzas renascia uma nova Fénix e dizia-se que as suas cinzas tinham o poder de ressuscitar o morto. Acreditando na mitologia ou no simbolismo que lhe está implícito, vejamos se a cinzas milagrosas da Fénix são capazes de reanimar o Partido Trabalho e Solidariedade, faltando saber até que ponto o bico de Fénix é competente na perfuração do orifício da bipartidarização do sistema político cabo-verdiano.

Há que saber se a fauna política nacional terá pasto suficiente [eleitorados], e não estou aqui a rogar praga, mas para se alcançar uma boa profundidade na maciça crosta bipolar do sistema político das ilhas, a postura destes pequenos partidos políticos UCID, PTS, PRD, PSD, PCD [uns já extintos e outros no grupo de partidos em vias de extinção] que deviam incrustar nas mundividências da população, na perscrutação dos seus anseios e da pulsação das suas expectativas. Para que o país não se sinta receoso das travessuras e traquinices dum líder ou de qualquer partido mesmo que o país viva em doutrina democrática. Ou para que a Nação não fique num tubo de ensaio até que os parlamentares decidam assumir a concepção duma nova Revisão. O Partido Trabalho e Solidariedade, como qualquer outro partido ou movimento [existentes ou futuras] para ter sucesso, terá de ter uma visão superficial e não alucinação subterrâneo do arquipélago, porque somos quase um milhão de pulsação vulcânica para sermos auscultados, catalogados e diagnosticados.

Domingo, Novembro 15

O prato de Jacques Diouf.

Jacques Diouf, director-geral da FAO – Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação – iniciou este sábado uma greve de fome, para "sensibilizar a opinião pública" acerca da fome de milhões de seres humanos, que não conseguem levantar o voo sequer duma colher, e tão pouco vê-la sobrevoar o orifício da boca, como quem quer nos chamar a atenção de que há gente que morre de fome. Jacques Diouf é mais um africano que não comeu ontem entre os milhões de africanos [não por vontade própria e dificilmente irão comer por estes dias, Diouf autoflagelou-se não comendo durante um dia e Cristo que é Messias tinha jejuado por 40 dias]. Por isto, esta iniciativa é pouco original e dificilmente teria o impacto dum meteorito ou da queda da neve na superfície terrestre. Poucos [para não dizer NINGUÉM] irão sensibilizar-se com a penúria de Jacques Diouf, porque a Humanidade é cega, insensível e não tem vontade própria de decisão. O século XX foi extraordinariamente impulsionador de mudança e de transformações, e hoje em pleno séc. XXI com outras tantas mutações no horizonte, o que mais nos aproxima da Idade Média é a desgraça de ver milhões de Homens sucumbirem porque não conseguem alimentar-se, no momento em que a produção agrícola mundial é superior ao consumo global.

A MINHA FOLHA DE PROSA & POESIA IV


Liderança

Doces de meninices

Por superstição cortamos a cauda do cão para vigiarem os rebuçados; ficamos enrolados nas nádegas da lagartixa e a cuspir para o chão antes que a mãe morra. Sempre que a cidade da Praia saía da algibeira para apanhar Sol à sombra, os piolhos chapinhavam na poça de água, e uma manada de crianças nuas abandonam as garrafas vazias para correr com as moscas das feridas e beber do Sol da ilha do Fogo. Na brincadeira com os gafanhotos do Sahara íamos inventando utensílios e brinquedos: os carros de lata carregados de recomendações da avó, estacionados ao pé da mercearia do senhor que vendia berlindes e bolinhos de açúcar; pistolas de arame com que íamos afugentando os fantasmas necrófagos que alimentavam dos cadáveres do sono. Estes peixes-crianças levavam no castanho dos olhos, copos enchidos com pequenas estórias nocturnas electrificando a cidade na falta luz eléctrica ou quando o cão mordia a cera das velas. A primeira criança chegava, tirava o paladar do bolso e começava a adoçar todas as pedras com que ia construir o castelo e a textura da carne do soldado. O exército das formigas “ninjas” trazia o dialecto dos hieróglifos egípcios. As formigas governavam os tabuleiros de doce para a alegria do sono dos gatos, assim que se apagava a luz roçava a língua do cochilar nos olhos dos miúdos de lume: naquele dia tínhamos fantasiado o sopro a mirrar os lábios da menina, Vénus das nossas praias tinha caído para dentro da nossa boca nua e salgada, a inocência é vinho dos pincéis e incêndio delinquente dos dedos.

Sábado, Novembro 14

Arte de Gerações 11: Mayra Andrade - "Lua"