Os ossos dos dedos esguios da morte tocam-nos nos ombros. O povo assusta e grita de desespero! A morte vem com a sua gadanha ameaçando o sossego dos ilhéus, principalmente a paz de espírito dos praienses, que ao longo da vida pouco ou nada se preocuparam com o lixo e a sujidade da cidade. Hoje é dia de procissão, a população junta-se no saneamento urbano – tolerância de ponto para limpeza de toda a cidade da Praia. Triste, é que se não teve chegado a morte nunca tal acontecia. Roga pela piedade divina quem é crente, e pela misericórdia do Aedes Aegypti quem tem mais fé no animismo do pavor do cidadão.
Na cidade da Praia as pessoas convivem facilmente com a porcaria. Os excrementos caem-nos da mão com a mesma facilidade com que a poeira dos lixos nos entra pelos olhos; as pessoas adoecem [só que não era aos milhares e ninguém morria, pelos menos que déssemos conta ou que viesse na sua declaração de óbito − “a causa da morte é o lixo”] e morrem por causa da dengue. Até hoje, nenhumas das autoridades se ofenderam com o amontoar dos lixos nas bermas das estradas, nos arredores das casas, nos leitos das ribeiras e deu-se a catástrofe: com o lixo e a água estagnada o mosquito Aedes Aegypti cresceu e multiplicou, dominando toda a área quadrada da cidade, infectando as pessoas deixando-as enfermas e cheiro de morte no único sentido que é o trânsito da vida.
Estamos todos sintonizados com a gente das ilhas, as preocupações são sentidas aqui, léguas do horizonte Cabo Verde. Todo o rosário é pouco [na angústia e de cruz não faltam nem contas e nem dedos para o oficio da oração]! As explicações médicas são insuficientes para acalmar a angústia e a aflição da população. Demo-nos por nós unidos na desgraça, não se via os praienses neste frenesim e azáfama desde os tempos da fome sazonais. Só que fome existe pela culpa da natureza [se não chover, não há pasto e pouco podemos fazer], mas neste caso, o da dengue, a responsabilidade é dos praienses. Excluindo César Schofield, que publicamente confessou no blogue Bianda, o seu delito [faltando ainda, cento e dezanove mil, novecentos e noventa e nove indivíduos; tendo em estimativa que a população da cidade da Praia ronda os 120 mil] os outros não se redimiram dos seus pecados cívicos.








